
“Eles deveriam se lembrar de que já foram fracos, já sofreram”.
A certa altura de No Other Land, Basel, ativista palestino, conversa com seu amigo Yuval, jornalista israelense, sobre a possibilidade de se casar, eventualmente. A perspectiva é sombria. Depois de anos lutando em vão para impedir que o exército israelense continue expulsando seu povo da comunidade rural de Masafer Yatta — no intuito de construir ali um complexo de treinamento militar— Basel está exausto. Seu futuro é sombrio, mas ele se tornaria ainda pior, já que esse momento do filme ocorre em 2023, logo antes do massacre que viria a castigar a Palestina continuamente a partir de setembro daquele ano.
No Other Land, enquanto documentário, é despido de qualquer floreio estilístico — muito por necessidade, imagino. As imagens que constroem a história se agrupam de forma simples e quase improvisada, e não é difícil imaginar os dois jovens editando, às pressas, o material num notebook apoiado em escombros do que, antes, foi uma casa. Um lar.

A narrativa, no entanto, não perde nada de sua força. Pelo contrário, existe uma verdade inquestionável que emana de um registro que jamais oferece o alívio de uma solução. Ele apenas testemunha, e torce para que testemunhar seja suficiente. Para que o mundo visualize a quantidade de vidas destruídas por motivos que jamais são justificados, explicados plenamente ou mesmo racionalizados… e se emocione com isso. Cobre quem precisa ser cobrado. Escolha se posicionar a favor dos desfavorecidos.
É difícil pensar numa saída fácil para o que vemos aqui, mas No Other Land, pelo menos, estende a mão e nos entrega um vislumbre do que ocorre nos cantos do mundo onde não olhamos com frequência, protegidos aqui em nosso continente ocidental (e ocupados com nossos próprios problemas, claro). Ainda assim, penso que filmes desse tipo, feitos com tão pouco recurso — e, portanto, tão pouco ruído entre o que foi filmado e o que chega até nós — são tão dilacerantes que eu acho bem difícil não querer estender a mão de volta.

