Crítica – O Corvo (2024)

De pesadelo gótico metaleiro hiper-estilizado e satisfeito com sua estrutura gamificada de vingança, o Corvo vira, nessa nova versão, um romance trágico emo sem sal ou qualquer traço maior de personalidade.

O filme de Rupert Sanders não chega ao abismo qualitativo de um Rebel Moon (eterno saco de pancadas, desculpa gente), mas se apresenta da forma mais genérica possível, mesmo quando tenta assumir alguma posição estética mais definida (a troca das cores pretas pela paleta candy colors / geração Z / clubber poderia soar inovadora, mas apenas destoa demais do material original). 

É compreensível que o filme procure dar mais tempo de tela a Shelly (a namorada do anti-herói titular, interpretada pela cantora FKA twigs), num movimento de fazer da personagem mais do que só uma motivação abstrata para o protagonista, mas sua relação com Eric é tão artificial e desprovida de química que o resultado apenas prolonga o inevitável: Shelly continua sendo só uma ferramenta narrativa, mas desta vez ela arrasta todo o ritmo do filme consigo. Por conta disso, chega a ser bem frustrante o quanto O Corvo de 2024 se recusa a acontecer — a abraçar a ação e a proatividade de Eric até que seja tarde demais, quase no final da duração.

E por mais que Bill Skarsgård esteja decente no papel (muito por conta de seu rosto inevitavelmente marcante), Brandon Lee conferia muito mais carisma a uma figura teatral que sabia ser ameaçadora e sombria mas também apresentava vulnerabilidade e afeto quando lidava com pessoas próximas com as quais ele se importava. Aquele Corvo nos trazia uma gama de emoções diferentes, enquanto este de agora provoca apenas a apatia, ainda que uma coreografia violenta de luta na ópera arrisque arrancar de nós alguma reação mais palpável. Reação esta que, no entanto, surge meio distante ou até questionável, já que o personagem dizima, neste trecho, uma dezena de funcionários anônimos do antagonista, ao invés de caçar um seleto grupo de criminosos desprezíveis e merecedores de sua ira póstuma, como no filme original.

Pior ainda é o vilão, interpretado por Danny Huston, reciclado de dezenas de antagonistas ricaços sobrenaturais que ouvem música clássica (um clichê que confesso detestar) e que empalidece perante o inimigo do filme original (Michael Wincott), cujo mergulho orgulhoso na escuridão estilizada era sintetizado pelo traje a la Antonio Banderas em Entrevista com o Vampiro e o clímax onde duelava com o Corvo, espada em punho, no topo de uma catedral gótica numa noite chuvosa. A comparação é simplesmente injusta.

A conclusão é aquela já batida (mas não inverídica) constatação de que alguns remakes simplesmente não possuem razão para existir. Nesse caso, uma obra nitidamente intrínseca à particularidade estética dos anos 90 — precursora de vários filmes de super-heróis que viriam em seguida, de Blade a Demolidor — pertence àquela época, e tão somente a ela. 

Qualquer tentativa de ressuscitar, via corvo ou não, esta ideia do passado deveria vir acompanhada de uma motivação maior que transcendesse a mera necessidade corporativa de lucrar migalhas (proporcionalmente falando) com IPs inanimadas. Não é o caso, aqui.