Crítica – Fúria Primitiva (2024)

Num determinado momento de Fúria Primitiva, estreia do ator Dev Patel na direção, um determinado personagem menciona a série John Wick, um dos pilares do cinema de ação atual, e o diálogo soa como um aceno nitidamente redundante ao espectador. Afinal, até ali, praticamente tudo o que vimos em cena parece remeter à franquia de Keanu Reeves como referência máxima de estética e temática, o que não seria um problema em si — é ótimo que outros filmes tentem acompanhar o nível elevado por Keanu e o diretor Chad Stahelski — mas assistir a um diretor claramente inspirado por suas raízes indianas utilizar o cinema de outro país como o alicerce de sua empreitada me parece uma oportunidade levemente desperdiçada… mesmo que o resultado final seja promissor e até suficientemente efetivo.

O verdadeiro problema é que Patel parece querer ser John Wick, mas durante boa parte de Fúria Primitiva, sua direção lembra muito mais o estilo hiperestimulado de Danny Boyle, que revelou o jovem ator ao mundo com o oscarizado Quem Quer Ser um Milionário, em 2008. Muitos dos maneirismos de Boyle se repetem aqui, como a câmera constantemente instável, os cortes rápidos e despreocupadamente confusos e um senso geral de energia que se propõe a ser muito mais sensorial do que inteligível. Assim como Christopher Nolan picotou excessivamente os movimentos de Batman em Begins, encenando a ação do ponto de vista desnorteado dos capangas nocauteados pelo heroi, Dev Patel orquestra muitas das sequências de pancadaria iniciais de seu filme com um desleixo proposital que representa bem as habilidades não refinadas de seu protagonista, mas essa é uma escolha que retira muito da beleza plástica que o cinema de ação hollywoodiano vinha recuperando depois de Jason Bourne (com seu jeito “certo” de tremer a câmera e acelerar a montagem) e sua herança maldita, como Busca Implacável e tantos outros (que só passaram a replicar o estilo caótico porque ele é mais fácil de filmar e editar).

Fora isso, a outra referência óbvia seria o cinema de ação indiano, que vai numa direção completamente diferente, se entregando para as impossibilidades de encenações fantasiosas com muito mais orgulho, abraçando a artificialidade como uma ferramenta potente de traduzir, no cinema, tudo aquilo que jamais poderia existir no mundo real. O recente sucesso internacional de RRR, do cineasta S.S. Rajamouli, comprova um verdadeiro apetite de fora da Índia por obras assim, que cheguem até o público inalteradas por um “filtro ocidental” que tiraria justamente o que elas teriam de mais inovador para quem só consome filmes do mercado norte-americano. 

Claro que essa estética de ação indiana, com sua pirotecnia de efeitos digitais, vem com um custo alto, e é só reparar na diferença de orçamento entre RRR (aproximadamente 66 milhões de dólares) e Fúria Primitiva (10 milhões de dólares) para entender que, mesmo se ele quisesse, Patel não conseguiria realizar um filme desse porte como seu projeto de estreia na direção, mas o caminho escolhido por ele inevitavelmente tira parte do atrativo de assistir a um espetáculo de ação protagonizado por um ator indiano (sim, ele é britânico, mas vocês entenderam) que realmente tivesse o estilo narrativo Bollywoodiano como fundamento, e não só como verniz.

Todo esse raciocínio, no entanto, não me impede de enxergar as qualidades de Fúria Primitiva. Mesmo cometendo alguns deslizes sintomáticos de um jovem diretor, é interessante como o filme vai melhorando ao longo da duração, quase como se pudéssemos perceber o processo criativo de seu autor sendo refinado em tempo real, encontrando ritmo e atingindo o equilíbrio entre intensidade e respiro tão bem simbolizado na ótima cena do treinamento do protagonista ao som das batidas cadenciadas de tambores que haviam sido estabelecidos, numa cena anterior, como representações do masculino e feminino. Da mesma forma, o filme encontra um jeito de unir estes dois lados (ação e contemplação) num fio narrativo mais coeso, que não deixa de entregar bons momentos de fuga da realidade (o plano do ator abrindo seu peito e a câmera mergulhando nesse interior que se torna uma viagem astral maravilhosamente lisérgica) e de violência também (o ato final, com Patel dizimando seus oponentes ao usar fogos de artifício como pistolas é inspirado, mesmo que breve). 

Nesse desfecho, a câmera registra a ação com muito menos interrupções, ainda que mantenha a intensidade natural de um corte, movendo-se pelo ambiente para reenquadrar e ressaltar diversos momentos desse combate. Além disso, mesmo que a luta no clímax volte a investir numa decupagem mais picotada, ela ao menos se torna bela ao trazer, no cenário, diversos discos reflexivos que emolduram o rosto dos personagens como se fossem quadrinhos de uma graphic novel que entram e saem de cena num misto deliciosamente contraditório de imagens estáticas que também se movimentam.

É um final bastante eficiente, mesmo que impedido de alcançar uma verdadeira catarse emocional graças a uma trama de vingança tão lugar-comum (e desnecessariamente ocultada pela montagem fragmentada dos flashbacks, na minha opinião). Ainda assim, Patel se sai bem na construção política da trama, com o retrato de um líder carismático religioso que, mesmo conhecendo a miséria de perto, se corrompe e utiliza sua influência para adquirir cada vez mais poder e luxo, ainda que esta ideia se desenvolva apenas à margem da história principal. 

Em geral, Fúria Primitiva é irregular, mas parece ter o coração no lugar certo, sendo um filme nitidamente conduzido por uma intensidade meio desenfreada por parte de Dev Patel. Honestamente, isso já é melhor que muitos filmes realizados no piloto automático que surgem aos montes no cinema de ação. Que ele siga em frente, e que não deixe para trás esse entusiasmo.