
Imaculada não reinventa a roda, seguindo à risca a cartilha do clima opressivo que o gênero de terror religioso adora atribuir à igreja católica. Em filmes assim, não há força do bem que seja capaz de repelir as ações de um mal que se prolifera tanto nas sombras desses espaços que deveriam ser seguros quanto no coração daqueles que foram incumbidos de guardar a fé. Assim, padres, freiras e demais membros da instituição se tornam figuras sempre nebulosas, ora atormentadas por pecados ocultos, ora movidos por agendas próprias que parecem ir na contramão de uma religiosidade benéfica e restauradora.
Nesse sentido, por mais que o terror seja um campo muito apropriado para que se discuta o fanatismo perigoso de indivíduos que interpretam textos antigos segundo sua própria visão distorcida da realidade, ou mesmo que se reflita sobre o impacto — individual ou comunitário — de uma fé que cerceia mais do que liberta… é nítido que existe um certo maniqueismo que conduz narrativas assim, ditando que a religião é sempre opressora, sempre nociva. Imaculada, portanto, não foge à regra, caindo num lugar comum que tem sido explorado há bastante tempo, sem necessariamente dizer algo novo.
Ainda assim, essa noção de que o gênero de terror precisa sempre trazer um significado maior e um subtexto cheio de nuances tem sido usada, equivocadamente, para defender a existência do “terror elevado”, um termo que separaria obras densas e importantes de filmes pobres e descartáveis, focados unicamente em serem assustadores (como se isso não pudesse ser suficiente). Pensando nisso, seria aceitável que Imaculada herdasse a visão simplista do terror religioso caso o filme conseguisse usá-la para fazer um bom exercício do gênero, coisa que eu acredito que seja alcançada em partes — e muito, graças a Sydney Sweeney.

Não é difícil perceber quando jovens atores e atrizes se encontram em plena rota de ascensão, coisa que tem acontecido com Sweeney desde que se destacou em séries como Euphoria e White Lotus e filmes de grande apelo popular como Todos Menos Você (ao lado de Glen Powell, que também vem subindo no estrelato) e sucessos de crítica como Era Uma Vez… em Hollywood, de Tarantino. Imaculada funciona melhor quando se permite ser esse veículo de Sydney Sweeney, que se ampara nas suas características intrínsecas e as utiliza a favor da narrativa. É o caso de uma certa ingenuidade conveniente, presente no rosto angelical e postura levemente bobinha que Cecilia, a protagonista, usa como escudo para evitar — ou, pelo menos, adiar — algumas dificuldades da vida no convento. Nessa linha, gosto muito de como o filme aborda a dificuldade da personagem em aprender italiano, a língua obviamente dominante numa igreja católica no interior da Itália, e é Sydney quem transforma essa dificuldade numa certa recusa disfarçada, com seu jeito adolescente sempre à procura do mínimo esforço possível, uma atitude incompatível com a vida escolhida por ela e que gera, portanto, uma série de atritos com suas companheiras ou superiores.
Essa primeira parte do filme consegue ser eficiente e trazer, inclusive, algumas boas referências estéticas, lembrando filmes como Suspiria, de Dario Argento, não só em detalhes de alguns figurinos, mas na trilha sonora também, que evoca esse clima levemente hipnótico de uma personagem estrangeira se adaptando à rotina de um local misterioso. No geral, gosto de toda a sugestão de um terror iminente que vai se construindo lentamente, e que rende até imagens interessantes, como silhuetas ameaçadoras que se levantam da parte desfocada dos planos, mas é quando o filme começa a tentar concretizar esse terror que ele desliza para o lugar comum. A partir disso, o roteiro parece acelerar acontecimentos e abre mão de uma construção mais paciente da tensão em prol de sustos rápidos que procuram disfarçar um desenvolvimento de trama apressado, mesmo que a ideia principal do que está por trás de tudo seja interessante. Não é novidade, claro, mas é efetiva em explorar a noção perturbadora de uma gravidez forçada que parece pertencer a todos, menos à própria mãe que gera ali no seu corpo… alguma coisa.

Infelizmente, no entanto, a sensação geral é que o terror de Imaculada nunca acontece plenamente, já que o filme atropela diversas possibilidades de entregar recompensas verdadeiramente assustadoras ao longo da trama — com cenas pontuais que se encerram muito rapidamente — e não ajuda que os trailers tenham revelado quase todos os momentos memoráveis da narrativa, sobrando pouco espaço para a novidade numa trama que já vinha sofrendo com a reciclagem de conceitos amplamente utilizados em filmes assim.
É até um alívio, então, que o filme consiga emergir desse desenvolvimento irregular com um final bem satisfatório, que esmaga (literalmente) essa ingenuidade da protagonista num plano sem cortes projetado para dar a Sydney Sweeney o espaço necessário para que ela se liberte da carinha de boa menina. É um desfecho impactante que se beneficia, ainda, da recusa do diretor Michael Mohan em revelar uma imagem específica que se torna muito mais grotesca por habitar somente a nossa imaginação, com uma certa ajudinha do design de som.
Imaculada não é um filme revolucionário ou excepcional, mas ele cumpre bem sua proposta e expande, no imaginário popular, a presença de uma atriz que tem aproveitado muito bem as oportunidades de crescimento da sua carreira. Mesmo que ainda não tenhamos visto uma obra definitiva em consolidar o seu talento (pelo menos no cinema em si), como foi o caso com diversas outras estrelas do momento — Zendaya, Anya Taylor-Joy, Mia Goth e Florence Pugh são os exemplos que vêm à mente — é bacana acompanhar essa trajetória passo a passo, e nesse sentido, alguns poucos tropeços fazem parte da caminhada.
