
Foi com uma certa expectativa que assisti a este novo filme do diretor cearense Pedro Diógenes, graças aos prêmios de Melhor Longa-Metragem pelo júri popular na 26a Mostra de Cinema de Tiradentes de 2023 e Melhor Filme pelo júri popular e da crítica na Mostra de Gostoso em 2022, além de um burburinho alardeando a obra como um Aftersun brasileiro: um filme sensível sobre um pai e sua filha convivendo após anos de distância.
Na trama, Joana (Lis Sutter), aparece para passar uma semana com o pai, Renato (Demick Lopes), um humorista que apresenta seus shows em churrascarias e casas noturnas de Fortaleza interpretando a personagem Silvanelly. Aos poucos, ambos são transformados por essa relação que fazia falta a eles e que se restaura através da cumplicidade que surge quando se divide a rotina, os afazeres e os afetos da vida.
A Filha do Palhaço, no entanto, não me parece ter tanta relação com aquele filme estrelado por Paul Mescal, já que o seu roteiro bastante linear procura uma espécie de preenchimento completo das lacunas emocionais, numa abordagem que se afasta bastante da experiência propositalmente incompleta e embaralhada de Aftersun, cuja narrativa fragmentada representa muito bem a jornada sem respostas da protagonista por suas memórias paternas. Isso já não ocorre no longa de Diógenes, que se propõe a ser muito mais reconfortante, criando um espaço seguro de união familiar que alcança, enfim, um alto grau de resolução.
Faz sentido, afinal, que o filme se proteja nesse terreno seguro. A Filha do Palhaço entrou em produção entre 2020 e 2021, anos difíceis não só pela pandemia que assolou o mundo, mas pelo desmonte do audiovisual brasileiro que prejudicou inúmeros projetos nacionais, comandado por um governo que representava uma ameaça diária a pessoas como as retratadas frequentemente na filmografia de Diógenes. Assim, é coerente que seu filme recente procure ser um refúgio emocional que abre mão de uma complexidade mais cinzenta em prol de se tornar algo semelhante a um abraço caloroso.

Pensando nisso, é admirável que A Filha do Palhaço se apresente com uma simplicidade muito genuína, que surge das interações cada vez mais próximas entre pai e filha, bem como de uma construção atenta do cenário cultural de Fortaleza: suas lojas, ruas, casas e bares que evocam uma duplicidade inevitável — tristeza e alegria — proveniente dessa mistura entre um homem depressivo e uma adolescente incompreendida que procuram uma conexão que os tire desse estado emocionalmente à deriva, e os leve para um futuro mais esperançoso.
Ainda assim, admito que aprecio mais as intenções do filme do que a forma como elas são executadas, já que senti, a todo momento, o roteiro funcionando para conectar as cenas, plantando pequenos conflitos e abrindo espaço para que os personagens recitem frases marcantes, que não me parecem surgir naturalmente mas sim como parte dessa estrutura meio convencional de drama familiar. Mesmo as atuações, que funcionam bem isoladamente, não parecem encontrar um ponto de encontro onde existam em conjunto e fluam de forma dinâmica. São muitos os silêncios que se colocam entre os diálogos de Renato e os de Joana, principalmente no começo da história, e isso até poderia simbolizar o abismo entre os dois, mas a condução das cenas e a performance dos atores sugere que ambos simplesmente não encontraram aquela química tão importante que dá vida às cenas.
Graças a isso, não me conectei tanto com A Filha do Palhaço quanto gostaria, apesar dos esforços válidos de toda a equipe e da sensibilidade inegável do filme. Talvez fosse possível encontrar alguma forma mais inventiva de se contar essa história, e nem é preciso buscar referências estrangeiras para isso. Em 2023, o cineasta Guto Parente lançou Estranho Caminho, um drama cômico cearense sobre pai e filho se aproximando que me emocionou bastante, tanto quanto me divertiu em seu flerte com o terror experimental, com o humor do constrangimento ou mesmo a fuga do realismo… e é até curioso que Guto tenha dirigido Inferninho (2018) junto com Pedro Diógenes, diretor deste A Filha do Palhaço.
De qualquer forma, vale conferir o filme e termino a crítica mencionando uma das imagens que mais me agradou: Renato e Joana, no carro, fugindo aos risos de uma merecida punição a um crush da menina (João Lucas Beija Mal), enquanto, no banco de trás, se encontra o totem em escala real da personagem de Renato, Silvanelly, igualmente sorridente. Numa única imagem, a filha convive em plena harmonia com todas as facetas do pai… e isso me fez sorrir também.

