Crítica – Love Lies Bleeding / O Amor Sangra (2024)

O Amor Sangra foi uma ótima surpresa, para mim. É um daqueles filmes que puxam várias referências diferentes, mas nunca se contentam em ser somente uma repetição do que veio antes, construindo assim algo novo que pulsa com uma energia viva que o cinema só costuma encontrar no frescor, na ousadia e na libertação.

Digo isso, pois o que a cineasta Rose Glass faz aqui em seu segundo longa-metragem me parece o resultado de um cruzamento entre Drive, de Nicolas Winding Refn (uma obra entregue às cores fortes de um mundo cuja descida em direção à violência é o destino inevitável de seus personagens), com toques de O Grande Lebowski (um certo humor sombrio que permeia o absurdo das situações, aliado ao surrealismo delirante de determinados momentos ou mesmo a excentricidade visual de personagens como o de Ed Harris, numa caracterização plenamente divertida por si só), e até o… Hulk de Ang Lee?

Ainda assim, o mais interessante é como essa mistura bacana está a serviço de uma trama amorosa contagiante entre Kristen Stewart e Katy O’Brian, que não só aproveita a química incrível entre elas, mas evita as maiores armadilhas que poderiam surgir de uma história assim. Por exemplo, ambas as personagens cometem erros e acertos ao longo da trama, numa dinâmica que não só é mais interessante de assistir, mas também ajuda a representar esse relacionamento de forma realista e não excessivamente virtuosa e inocente — como é o caso de muitas obras que se utilizam de uma representatividade apenas como escudo midiático ou vitrine, pouco se preocupando em criar pessoas de verdade por trás dessa representação superficial.

Não é o caso aqui. O Amor Sangra é bastante eficiente no desenvolvimento dessas duas mulheres — uma competidora de fisiculturismo que esconde impulsos violentos e uma gerente de academia com péssimas ligações familiares — e consegue aproveitar muito bem a conexão entre elas como alicerce do espiral de dramas que se desenrola a partir dessa relação.

Junte a isso o fato de a cineasta parecer realmente se divertir ao planejar as diversas sequências do filme, que se beneficiam de uma ótima direção de fotografia, além do design de produção e figurino trabalhando em conjunto para recriar o ambiente colorido e semi-nu nas academias de ginástica dos anos 80, assim como a trilha sonora maravilhosamente presente como força condutora da montagem, e não simplesmente uma adição tardia na pós-produção, como tantas vezes vemos em filmes muito mais genéricos. 

Isso inclusive tem sido uma boa tendência que vem se consolidando ao longo dos anos: filmes de ação que entendem o estímulo visual como um fim por si só, suficientemente valioso e pertencente à essência do cinema enquanto meio de contar histórias através do movimento. Nesse sentido, Mad Max Estrada da Fúria, John Wick e o (no momento) inédito Fúria Primitiva, de Dev Patel, são alguns dos exemplos de um cinema de gênero que mergulha de cabeça no potencial imagético de sequências de ação bem coreografadas, que se tornam ainda mais impressionantes por contarem com um visual distinto, desprendido do “real” e sem vergonha de se destacar pelo exagero.

O Amor Sangra parece sentir esse mesmo tesão pela estética marcante, aproveitando diversos elementos diegéticos (presentes em cena) para potencializar as cores e emoções do momento, como vemos na escolha de usar uma grande máquina de refrigerantes vermelha para refletir um forte tom de alerta sobre uma conversa perigosa entre dois personagens. Exemplos assim se espalham pelo filme e consolidam essa preocupação artesanal de uma diretora que parece se sentir plenamente energizada pela jovialidade desse começo de carreira.

Voltando à minha surpresa inicial, ela ocorreu, na verdade, por eu não ser um grande admirador de Saint Maud (2019), primeiro filme que Rose dirigiu. Mesmo competente, bem atuado e corretamente posicionado em sua crítica ao evangelismo forçado por parte de pessoas religiosas extremistas, sinto que esse comentário social é feito de um jeito meio unidimensional, que se contenta em apresentar o assunto e não elaborar muito além dele — algo que também se reflete na história, que constroi apenas uma única antecipação, resolvendo-a como esperaríamos que ela se resolvesse. 

Vejo esses problemas, talvez, como síndrome de uma inexperiência do roteiro e direção, que sofre com alguns deslizes habituais do “terror elevado” (termo usado de forma irônica), que muitas vezes acredita na importância da própria mensagem como elemento suficiente e até superior do gênero. Isso já não acontece em O Amor Sangra, que se delicia numa relação muito mais direta com elementos de terror — o gore, o jumpscare, o escatológico — sem precisar se justificar, usando-os pelo que são: ferramentas sensoriais de gerar incômodo, choque e, eventualmente, catarse.

É um filme intenso, dinâmico, confiante e amadurecido de uma diretora em plena ascensão, algo sempre interessante de acompanhar.

Love Lies Bleeding / O Amor Sangra está em exibição nos cinemas.