
É engraçado pensar, hoje em dia, nos acenos a Duna que O Vingador do Futuro de 1990 faz. De uma substância valiosa minerada num planeta inóspito, aos rebeldes lutando contra o invasor ganancioso e até o adulto paranormal num corpo infantil (concebido por efeitos práticos grotescos e maravilhosos), o roteiro de Ronald Shusett e Dan O’Bannon (também responsáveis pelos primeiros filmes do Alien) parece reconhecer o potencial dessas ideias “desperdiçadas” no filme não tão comercial de David Lynch, e remontá-las num produto mais popular, carregado dos excessos violentos e satisfatórios de Paul Verhoeven.
Excessos que jamais se tornam um demérito, já que Verhoeven é o diretor ideal para executar um filme blockbuster que se equilibra perfeitamente entre o escapismo e a sátira, entre a diversão e a reflexão, o espetáculo e a crítica. Esse delicado meio-termo é sempre engajante e se espalha por vários elementos da obra, como na entrega consciente que Arnold Schwarzenegger faz à caricatura cada vez mais frequente, ao longo do filme, quebrando sua fachada sisuda de herói de ação (àquela altura) e quase dando uma piscadela para o público, que parece não acontecer no último segundo, quando o filme salva a si mesmo de passar do ponto com mais uma leva sangrenta de tiros no ar.
Fora isso, o trabalho de maquiagem é simplesmente delicioso, principalmente quando a montagem alterna, sem que percebamos, a mistura entre o rosto normal dos personagens em sofrimento e suas versões ainda mais torturadas, de olhos tão magnificamente esbugalhados que fariam George Miller se orgulhar.
A autoconsciência aparece até na forma como a trama apresenta, sem mistério, todo o conjunto de convenções de histórias de espionagem que fazem parte do pacote da memória implantada que Doug Quaid compra na Recall — e segue para executar, à risca, estas mesmas convenções. É um movimento admirável, esse de o filme se assumir descaradamente como produto, e a ideia funciona tão bem justamente pela condução segura de Paul Verhoeven, que evita até uma armadilha que pegaria cineastas menos inteligentes: [SPOILER] o final brusco que cogita a possibilidade de tudo ser mesmo um sonho, uma memória e — consequentemente — uma ilusão… e jamais confirma ou nega essa hipótese. Verhoeven simplesmente sabe que isso não importa. A emoção é real de um jeito ou de outro.
